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Guerra entre Correios e China tem impacto brutal em negócios e compras

O cabo-de-guerra entre os Correios e os milhares de produtos chineses que chegam todos os dias ao Brasil ganhou mais um capítulo nesta semana – e pode ser mais dramático do que muitos imaginam. O serviço postal brasileiro anunciou na última segunda-feira uma cobrança fixa de 15 reais sobre todas as compras internacionais, como taxa extra de despacho postal.

A medida já está valendo e funciona de forma retroativa – quem estiver esperando por uma encomenda vinda do exterior deve rastrear o pacote e fazer o pagamento dos 15 reais por meio de boleto ou cartão de crédito. Segundo um executivo do mercado ouvido por EXAME, a decisão de cobrar uma taxa fixa de 15 reais em todas as compras internacionais pode comprometer 70% dos pedidos que estão para serem entregues e “só acusa a posição de monopólio” da estatal. O anúncio já afeta negócios que praticam o comércio transfronteiriço – especialmente os que praticam valores menores, como os chineses.

Guerra com o outro lado do mundo

Os Correios já cobram uma taxa de despacho postal para objetos tributados, que devem ser apresentados à aduana. A novidade é cobrar uma taxa de despacho para itens não tributados, o que vai contra as definições da agência intergovernamental União Postal Universal, diz o executivo de mercado. Em resposta, os Correios afirmam que “a prática está em conformidade com a regulamentação postal internacional, notadamente da União Postal Universal e, inclusive, é adotada por diversos países no mundo”. A UPU possui 192 países signatários, incluindo Brasil e China.

Apesar de a taxa fixa incidir sobre todas as encomendas internacionais, as compras que devem ser mais afetadas são as de valores menores. É o caso da maioria das aquisições feitas em lojas online chinesas, como AliExpress e DealeXtreme (DX.com), ou em e-commerces internacionais que revendem produtos chineses, da gigante Amazon ao unicórnio Wish.

De acordo com In Hsieh, CEO da Chinnovation, o ticket médio das compras brasileiras nos e-commerces chineses é de 50 reais, possibilitados também por políticas de descontos agressivos e de fretes grátis. Já o especialista de mercado afirma que 40% das compras vão de um até cinco dólares (na cotação atual, de quatro a 20 reais). Com isso, a nova taxa pode representar de 75 a 375% sobre o valor da encomenda.

Enquanto isso, o ticket médio do comércio eletrônico brasileiro em geral fica em 418 reais, segundo o relatório Webshoppers, da consultoria Ebit. “Nesse sentido, 15 reais é um valor muito significativo. A diferença de preço ainda pode compensar em alguns casos, mas certamente as compras irão diminuir”, disse Hsieh em entrevista anterior a EXAME.

A medida surge após uma visita dos Correios ao China Post, operador de serviços postais localizado em Pequim, entre 12 a 18 de agosto. Para o executivo do mercado, esse é um indicativo de que os Correios não conseguiram negociar com sua contrapartida chinesa um pagamento mais favorável pela entrega doméstica e, portanto, decidiram cobrar do lado mais fraco da equação: os consumidores da enxurrada de produtos chineses que chegam ao Brasil. Já os Correios afirmam que, “sobre a reunião recentemente ocorrida com o China Post, informamos que tais reuniões são recorrentes no ambiente postal internacional e não há qualquer relação entre os assuntos.”

Não é a primeira vez que os Correios compram briga com as importações chinesas. A estatal já alegou que os pacotes vindos da China burlam as regrasao chegarem ao país sem registro, o que evitaria a cobrança de um valor maior para o frete e dos impostos alfandegários. Tais pacotes precisam de uma triagem manual, o que aumentaria o custo da operação dos Correios. O prejuízo da estatal chega a um bilhão de reais ao ano com essa irregularidade.

Em março deste ano, o então presidente dos Correios, Guilherme Campos, falou a EXAME e informou que 300.000 pacotes chegavam todos os dias no Brasil. Campos prometeu que até o fim do ano os compradores pagariam essa diferença no momento da retirada da encomenda até o final deste ano – o que foi, justamente, a medida anunciada nesta semana. Hoje, a estatal é presidida por Carlos Roberto Fortner.

Impacto real

Considerando-se os 300 mil pacotes diários, a taxa de 15 reais por encomenda e vinte dias úteis no mês, a receita adicional dos Correios seria de 90 milhões de reais ao mês. Mas esses ganhos podem não chegar caso o número de pacotes vindos do exterior se reduza muito e os consumidores resolvam abandonar as mercadorias que já estão por aqui – e caberá aos Correios enviá-las de volta para a China. De acordo com o executivo do mercado, o abandono dos pacotes que já estão em tramitação pode chegar a 70%. “Tivemos, nesses últimos dias, os piores resultados em muitos anos.”

De acordo com o Webshoppers, cerca de 22 milhões de brasileiros realizaram compras no exterior pela internet no ano passado, 40% do total de clientes do comércio eletrônico. O total gasto em e-commerces internacionais passou dos 36 bilhões de dólares, mais do que os 47,7 bilhões de reais de faturamento das empresas nacionais de comércio eletrônico.

Um dos afetados com a decisão dos Correios é o e-commerce mobile de produtos chineses Wish. Com sede em São Francisco (Estados Unidos), o negócio é avaliado em 8,5 bilhões de dólares e atua em mais de 40 países, com mais de um milhão de vendedores, 200 milhões de produtos anunciados e 400 milhões de compradores. O Brasil está nos dez maiores mercados do aplicativo e é o quarto aplicativo de compras mais baixado, atrás apenas de AliExpress, Mercado Livre e OLX. Em sua descrição na loja de aplicativos Google Play, anuncia descontos de 60 a 90% em artigos de cozinha, bolsas, equipamentos esportivos, maquiagem e moda.

“Entregamos produtos que as pessoas não imaginariam que cabem no bolso e já vemos comentários de gente desistindo do plano de juntar no mês para gastar com nossos produtos. A nova taxa pesa mais no bolso das pessoas de baixa renda”, afirma Nicola Azevedo, líder de crescimento na Wish. “Queremos conversar com os Correios assim que possível.”

Para a fonte de mercado ouvida por EXAME, são esperadas ações públicas contra o anúncio dos Correios – mas elas não virão de chinesas como o AliExpress. “Não é o perfil deles. Irão simplesmente desinvestir no país, como já fizeram.”

Segundo Hsieh, as transações internacionais representam 24,4% do total de operações nos e-commerces chineses voltados a pessoas físicas. “O Brasil é um mercado importante, mas é apenas mais um mercado. O país esfriou para os chineses ao longo dos últimos anos e eles desinvestiram. Outros mercados cresceram, como a própria China, enquanto nós estacionamos”, analisou anteriormente o CEO da Chinnovation. Além da recessão econômica, colocar mais entraves comerciais só afasta ainda mais os chineses.

No dia 3 de setembro, a União Postal Universal fará um congresso extraordinário na Etiópia. É a chance de os Correios, novamente, encontrarem-se com a China e negociarem um acordo de paz.

(fonte: Exame)

 

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